Brasil - Portugal - África

Teia Literária

Revista de Estudos Culturais: Brasil - Portugal - África

Textos


A CASA PORTUGUESA EM A MORTE DE CARLOS GARDEL
André Luiz Alves Caldas Amora
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)
FAP / Lusófona


Resumo:
Romance publicado em 1994, A morte de Carlos Gardel apresenta uma família de Benfica que tem seu convívio destruído pela fragilidade dos laços humanos. Este estudo tem como objetivo discutir, a partir do relacionamento familiar das personagens do romance, o esfacelamento das utopias e o mal-estar do homem português contemporâneo.

Palavras-chave:
Literatura; romance contemporâneo; cotidiano.


Abstract:
Novel published in 1994, A morte de Carlos Gardel features a family of Benfica who have their living destroyed by the frailty of human bonds. Our study aims to discuss, from the family relationship of the characters in the novel, the disintegration of the utopia and ills of the Portuguese contemporary man.

Keywords:
Literature; contemporary romance; daily life.


         
Falemos de casas, da morte. Casas são rosas para cheirar muito cedo, ou à noite, 
          quando a esperança nos abandona para sempre 
                                                                                                                       Herberto Helder
 
    Uma das características das eras moderna e pós-moderna, como visto em diversos estudos sobre o assunto, reside justamente no esfacelamento da utopia, das grandes esperanças. O mal-estar sentido pelo homem contemporâneo, tão bem exposto por Zigmunt Bauman, leva-nos a uma constatação: o homem atual tornou-se impotente frente a uma sociedade cujas bases sólidas se desmancharam, tornando, desse modo, a vida pós-moderna um grande tapete de simulacros e efemeridades. A modernidade que, para Walter Benjamin, “nasce sob o signo do suicídio” e, segundo Sigmund Freud, “dirigida por um instinto de morte”, desfaz todas as crenças de um “mundo bom e perfeito”, no qual “a sabedoria hoje apreendida permaneceria sábia amanhã e depois de amanhã, e em que as habilidades adquiridas pela vida conservariam sua utilidade para sempre” (BAUMAN, 1998, p. 21).         

    Juntamente com tal problematização pós-moderna, pode-se, ainda, na obra de Lobo Antunes, pensar o relacionamento familiar como produtor e produto de uma sociedade portuguesa marcada por traumas e perdas históricas. Os seguidos naufrágios dos sonhos portugueses e a constatação crua de sua condição semiperiférica em relação aos outros países da Europa direcionam Portugal a uma crônica melancolia, que envolve tudo aquilo que poderia ter sido e não foi, ficando o país, dessa forma, “parado no tempo” – como nos cita o texto Cismas Portuguesas, do ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger. Ao comentar o tempo português, diz ele: “O senhor [...] irá constatar que todos esses relógios públicos não dão a hora certa, ou melhor, que estão parados. [...] As idéias também pararam no tempo” (ENZENSBERGER, [s/d], p. 130).

   O estado de quase inércia do tempo português, em nossa visão, acaba também por tocar no próprio perfil do homem português, que, segundo Maria Luisa Blanco, 
 
    não se revolta face ao destino, há nele uma aceitação resignada do que o destino lhe põe 
    diante. A maioria deles são assim: calados, pausados, nunca estridentes, o sorriso em vez
    do riso aberto, a cortesia, a discrição” (BLANCO, 2002, p. 19). 

 
   Ainda, segundo Blanco, “a inexorabilidade do tempo e a caducidade das coisas respiram na obra de Lobo Antunes em simbiose com a melancolia portuguesa” (BLANCO, 2002, p. 19), mostrando, assim, o homem urbano de classe média em seu mais profundo estado de torpor.

   Dessa forma, nosso breve estudo tem como objetivo analisar o romance A Morte de Carlos Gardel (1994), no tocante “à perda da casa enquanto matriz familiar, atmosfera afectiva e física” (SEIXO, 2002, p.25), na qual essa casa, emblema do convívio afetivo, apresenta-se como metonímia do mundo português. O fato de a narrativa apresentar vários planos temporais que se entrelaçam funde, a nosso ver, as questões de tempo e memória e a condição de Portugal em um presente marcado pelo esfacelamento de suas principais utopias.

   Romance tecido por diferentes relatos, A morte de Carlos Gardel finda uma fase – composta por três romances: Tratado das paixões da alma (1990), A ordem natural das coisas (1992) e A morte de Carlos Gardel (1994) -  de “textos urdidos em torno da problemática da família, e centrados na casa e no meio urbano de Benfica, que conserva ainda laivos ou vestígios de uma vida provinciana e algo campestre” (SEIXO, 2002, p. 255).

   O título da obra remete ao cantor de tangos Carlos Gardel, mito da música popular argentina, que morreu aos 44 anos, em 1935, em acidente de avião na Colômbia, e a presença, no início de cada capítulo, dos títulos das canções por ele interpretadas acaba por acentuar a tragicidade que envolve a trama de Lobo Antunes. Percebe-se que a imagem do cantor argentino serve como uma grande metáfora da falência dos mitos, tanto da pós-modernidade quanto da sociedade contemporânea portuguesa.

   Em A morte de Carlos Gardel, o que se vê é a agonia de Nuno, jovem rapaz toxicômano, internado em estado de coma em um hospital de Lisboa, e Álvaro, pai de Nuno, “personagem masculina central mas de compostura física anti-heróica, desinteressante e desleixada” (SEIXO, 2002, p. 258), homem amargurado que, além de conviver com o abandono da esposa, mantém com seu filho um relacionamento conturbado.

   No que diz respeito à construção da narrativa, notam-se, como já dito, vários relatos – característica da obra de Lobo Antunes. Não há encontros nem diálogos entre as personagens no tempo presente da narrativa, mas sim uma série de evocações ao tempo da memória, deflagrando o distanciamento e o insulamento de suas personagens e refletindo, assim, a fragilidade dos laços familiares. A fragmentação do homem é representada por meio do isolamento do indivíduo em si mesmo, o que traz a anulação de sua personalidade e de seu projeto de existência.

   “A identidade é um fenômeno que deriva da dialética entre um indivíduo e a sociedade” (BERGER; LUCKMANN, 2007, p. 230). Porém, o que se vê em A Morte de Carlos Gardel é a presença constante da incomunicabilidade, da nostalgia e da solidão. Na vida moderna, excludente e seletiva, o esfacelamento da relação familiar surge como um dos desdobramentos das relações efêmeras da modernidade, que evidenciam a “misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de segurança que ela inspira e os desejos conflitantes de apertar os laços e ao mesmo tempo deixá-los frouxos” (BAUMAN, 2004, p. 8). Os relacionamentos, que oscilam entre sonho e pesadelo, são representativos da ambivalência do liquido cenário da vida moderna, gerando um problema insolúvel: o usufruir dos aspectos positivos dos relacionamentos sem, contudo, ter de pagar o preço do sofrimento por eles trazido, o que contribui para o esvaziamento das relações. A incapacidade de estabelecimento de vínculos familiares pode ser vista, por exemplo, em Joaquim, pai de Álvaro e avô de Nuno, que demonstra consciência acerca de sua inaptidão para gostar de alguém. Gostar, que para Joaquim seria a “melhor receita para um mau bocado” (ANTUNES, 1994, p.30):
 
    [...] o neto para quem não olho, não se cuide que por medo de me afeiçoar a ele e
    o meu filho tirar-mo visto que esse perigo não existe por não gostar de ninguém, 
    por nunca ter gostado de ninguém, e eu
(ANTUNES, 1994, p.30).
 
   Essa incapacidade de se estabelecerem vínculos afetivos parece ser a tônica dos personagens, cada qual ilhado em si mesmo, e sabedor de sua apatia em relação aos demais. A percepção da falência dos papéis desempenhados na sociedade atravessa o texto, como se percebe, por exemplo, no relato de Cláudia, que, no momento da morte de Nuno, constata a sua inaptidão como mãe e esposa, sensação também vivenciada por Álvaro. A morte do filho, longe de os unir, acentua a falha mútua, conduzindo-os a um mea culpa que de nada servirá, pois não os habilita a novas relações:             
                                                                      
   como se me abraçasse a mim também como se abraçam os doentes ou os
    feridos, porque falhámos os dois, não é verdade?, falhámos tanto os dois, até com
    o Nuno falhámos, e o hospital, a enfermaria, o moribundo do tétano, quando ele
    nasceu e mo trouxeram pensei, surpreendida, Era isto que me inchava as pernas e
    aumentava a barriga?, era isto que me dava pontapés no ventre?, e não senti
    apego nem amor, sentia espanto
(ANTUNES, 1994, p. 226). 
                
   A sensação de estranheza mútua entre Cláudia e Álvaro, talvez a maior dentre os esvaziamentos das relações observados na narrativa, tem seu ápice justamente no momento em que ela se descobre grávida. O momento em que a família começaria, portanto, a assumir o contorno mais delineado – com a chegada de um filho – marca precisamente a constatação, por parte de Álvaro, de que não ama e nunca amou a esposa, o que ele não hesita em lhe dizer:
 
   Lembro-me de um dia diferente do de hoje, com chuva, o frio grelava-me os ossos
    até eu entender que não era o frio que me transia, era a cara sem feições
    emergindo do espelho, até eu entender que fizera um filho a uma estranha,
    entender que não gostava dela, não gostava do cabelo demasiado louro, da pele
    demasiado branca, do tabaco que impregnava os recessos da memória, a
    infância, o meu avô, o cachorro, a Avenida Gomes Pereira, o loendro
(ANTUNES,
   1994, p. 18).
 
   Além da relação Cláudia / Álvaro, também os demais relacionamentos representados no texto são afetados por essa apatia ou estranheza. Após a separação do casal, Nuno percebe a casa de modo diferente, como se tudo ali lhe fosse estranho ou inóspito. O temor de perder a mãe para outro homem dá ao menino a angústia da não-pertença, numa sensação de exílio em sua própria casa, onde tudo lhe é, a um só tempo, familiar e estranho, fruto do alargamento da instituição familiar, decorrente de sucessivas separações e novas conjugações: 
 
   Uma tarde, ao chegar da escola, encontrei-a de vestido novo, a apanhar revistas e
    brinquedos no chão, a colocar uma jarra de flores na mesa onde havia os talheres
    que nunca se tiravam da gaveta, três pratos em lugar de dois, e tacinhas com
    amêndoas e palitos de queijo. Pusera música no gira-discos, proibiu-me de ligar a
    televisão para assistir aos desenhos animados, mandou-me lavar os dentes e
    pentear o cabelo, e como a casa tinha deixado de se parecer com a minha e a
    minha mãe tinha deixado de se parecer com a minha mãe pensei que também ia
    pegar numa mala e ir-se embora e desatei a chorar
(ANTUNES, 1994, p. 236).
 
   Berger e Luckmann, ao analisarem a construção da realidade social, pensam o modo como o comportamento infantil acaba por ser moldado às conveniências sociais: 
 
   
As crianças devem “aprender a comportar-se” e, uma vez que tenham aprendido, precisam
    ser “mantidas na linha”. O mesmo se dá naturalmente com os adultos. Quanto mais a conduta
    é institucionalizada tanto mais se torna predizível e controlada. (BERGER e LUCKMANN, 2007,
    p. 89). 
 
   A esse respeito, é expressivo o momento em que Nuno é apresentado ao amante da mãe, situação constrangedora para todos, envolvendo as expectativas da mãe em relação a uma simpatia mútua que não ocorre, o desconforto de Helder, observado com pavor e raiva pela criança, e a visão de Nuno, que mescla o medo de perder a mãe e a antipatia pelo intruso que o faz sentir-se estranho em sua própria casa, além da patética necessidade, manifesta pela mãe de que tudo se assemelhe a uma família feliz:
 
   
e pensei Esta não é a minha mãe, este não é o andar onde moro, e apetecia-me fugir ou
    chorar novamente, e sentia-me aflito e confuso e com vontade que a minha tia me viesse
    buscar para ir a Carcavelos com ela, e o homem, de perna cruzada no sofá, a mexer o gelo
    do uísque com o dedo
    - Então Nuno?
    E os quadros eram os mesmos e não eram, os móveis eram os mesmos e não  
    eram, mas a toalha não era a mesma, nem os guardanapos, nem os copos, e
    apesar de não me doer nada não conseguia mexer-me
(ANTUNES, 1994, p. 238).
 
   Nos momentos passados com o pai, a sensação não é diferente. Movido possivelmente pela culpa que assola o homem que não vive com a família, Álvaro tenta, em vão, suprir as carências e a distância emocional com presentes e diversão. O desconforto sentimental é mascarado pela prodigalidade com que compra tudo ao menino, sem a censura ou os limites de antes:
 
    e o meu pai, que até se ir embora não conversava comigo nem me via, a tossir de jornal
    sobre a cara e a esticar a orelha para um tango, o meu pai na esplanada do Jardim
    Zoológico, preocupado com o sol
    - Põe o chapéu
    a pagar-me laranjadas, a pagar-me chupa-chupas, a pagar-me bolos, a tentar interessar-se,
    a tentar mostrar que se interessava, o meu pai num tom falso
    - Como é que vai a escola?
(ANTUNES, 1994, p. 240).
                
   A artificialidade observada no falso interesse do pai pelo filho toca ainda em um ponto-chave da narrativa, detectado por Maria Alzira Seixo: ao ritualizar a visita e o passeio, Álvaro resgatará, a posteriori, de modo nostálgico, uma intimidade que nunca houvera de fato entre ambos:
 
   
[...] quando Álvaro levava o filho ao Jardim Zoológico, a seguir à sua separação de Cláudia,
    não era o interesse pelo filho que desse modo demonstrava, nem sequer o gosto que o filho
    teria, por sua vez, em estar com ele – antes, de parte a parte, o cumprimento de um ritual
    incômodo para seres afastados pelo ressentimento e pela incomunicabilidade do afecto, um
    hábito de repetição sem sentido mas que a morte do filho vai consagrar, para ambos, em
    jeito nostálgico de uma felicidade que para nenhum deles chegou a existir
(SEIXO, 2002, p.
   260).
 
   A cena em que Helder e Nuno são apresentados, momento de tensão para a mãe e para a criança, surge de modo totalmente diverso quando lido pela perspectiva do homem, que se revela frívolo e seco em relação à amante:
 
    e o filho da sardenta agarrado à faca e ao garfo sem comer, mirando-me com caretas assassinas
    enquanto o pé da mãe não me dava descanso sob a mesa, eu que atravessa o Jardim na
    esperança de um dilúvio, de um tremor de terra, de uma gripe salvadora, e a seguir ao jantar os
    dedos da sardenta a passearem-me na cara, o cotovelo a atormentar-me as costelas, o cabelo a
    entrar-me no nariz juntamente com o cheiro de chichi de gato que impregnava o sofá, a alcatifa,
    as paredes, o próprio gosto da comida 
(ANTUNES, 1994, p. 260).
 
   Esse esvaziamento torna-se ainda mais flagrante quando visto pelo ponto de vista do menino, que se sente à parte tanto no relacionamento entre Cláudia e Helder quanto no novo casamento do pai. Percebendo ele, de modo intuitivo, que nada daquilo parece fazer sentido, seu desnorteamento se acentua, fazendo-o agarrar-se de modo compulsivo à mochila de roupas, que ele lota de fatias de pão, como se estivesse sempre prestes a fugir – ou ser abandonado. Nesse momento, ele percebe a opacidade de seu universo, o que remete ao pensamento de Berger e Luckmann no tocante à visão de mundo da criança:
 
   
Um mundo assim considerado alcança a firmeza na consciência. Torna-se real de maneira 
    ainda mais maciça e não pode ser mais mudado com tanta facilidade. Para os filhos,
    especialmente na fase inicial de sua socialização, este mundo torna-se o mundo. Para os pais
    perde sua qualidade jocosa e passa a ser “sério”. Para os filhos, o mundo transmitido pelos pais
    não é completamente transparente. Como não participam da formação dele, aparece-lhes como
    uma realidade que é dada, a qual, tal como a natureza, é opaca, pelo menos em certos lugares
    (BERGER e LUCKMANN, 2007, p. 85).
 
   A temática da infância é comentada pelo próprio Lobo Antunes, que, em entrevista, assinala a dificuldade presente nessa etapa da vida, tão sujeita a imposições alheias que se torna impossível de ser vivenciada com alegria:
 
    Nenhuma infância é alegre. A recordação dela é que pode ser alegre ou triste. Nenhuma
    infância é alegre porque a infância é sempre muito normativa. Os pais impõem normas contra
    as quais os filhos reagem constantemente. A infância e a adolescência são sempre períodos de
    uma grande revolta (Cf. entrevista concedida à Revista Visão, nº 712, 26/10/06).
 
   Se a infância é digna de revolta ou até causa de infelicidade, não muito mais promissora é a vida adulta. Se, para Berger e Luckmann, “a mais importante experiência do outro ocorre na situação de estar face a face com o outro, que é o caso protótipo da interação social” (BERGER e LUCKMANN, 2007, p. 47), o que se vê no romance são insularidades, seres que constituem ilhas e que, remotamente, se relacionam com o outro. A esse respeito, vale destacar o momento em que Raquel, como agente da enunciação, desiste de enganar a si mesma e para de mentir a respeito do amor de Álvaro. Confessa, em seu relato, a muleta emocional constituída por ele, a qual, longe de ser uma relação de amor e de respeito, dá-lhe a falsa impressão de estar menos só do que antes:
                                              
    e pouco me importa a opinião da Dona Silvina, e da minha prima, e das minhas amigas, sobre se
    o Álvaro gosta ou não gosta de mim, pouco me importa que supliquem que me separe dele e,
    para ser completamente sincera, pouco me importa se me ama dado que nunca me senti tão só
    como nos anos em que morei no Barreiro, domingos infinitos na esperança de ouvir tocar o
    telefone que não tocava nunca, a alugar filmes que se apreciam todos com a minha vida e a
    assoar no lenço a tristeza dos actores, não suporto a ideia de não encontrar ninguém na sala
    mesmo contrariado, mesmo sem fazer amor comigo, mesmo sem conversar, mesmo sacudindo-me
    quando venho do quarto, não suporto a ideia de uma única toalha na banheira, de um único
    prato na mesa, de uma única escova de dentes no copo, e o Nuno
(ANTUNES, 1994, p. 326).
 
   Outro aspecto relevante do texto refere-se às relações estabelecidas entre pessoas e objetos, em que estes fazem parte da vida cotidiana de tal forma que passam a constituir-se no espaço do desejo, exercendo poder sobre aquelas. Observe-se que a necessidade que Raquel manifesta em relação a Álvaro é metonimizada pelo número maior de toalhas, pratos ou escovas de dentes, transferindo, para o objeto a relação que deveria haver com o indivíduo. Afirma Margaret Cohen, citando Lefebvre:
 
    Poderíamos afirmar que a vida cotidiana é o lugar do desejo, desde que especifiquemos que
    também é – fundamentalmente, a bem da verdade – o não-local do desejo, o ponto em que o
    desejo morre de satisfação e ressurge da cinzas... o poder dos objetos materiais faz parte da vida
    cotidiana... a vida cotidiana tende a fundir-se com objetos materiais, enquanto o desejo não –
    aí reside o segredo de seu poder (COHEN, 2001, p. 273). 
 
   Nessa situação, em que “[...] a linguagem marca as coordenadas da vida na sociedade e enche esta vida de objetos dotados de significação” (BERGER; LUCKMANN, 2007, p. 39), tem-se, no romance antuniano, uma série de situações / pessoas / objetos, numa tríade em que os últimos parecem metaforizar a relação entre os dois primeiros. Se o saco de roupas que Nuno carrega junto a si de forma obsessiva reflete seu medo diante do abandono, não muito diferente é o momento em que Raquel, ao tentar provar o amor de Álvaro, acaba por despertar no leitor a sensação inversa, uma vez que suas palavras sugerem, de forma inconsciente, que ele teria ficado fascinado por sua casa, e não por ela, e que seria aquela o verdadeiro motivo de sua união:
 
    sei que gosta de mim desde o primeiro dia, desde que ficou comigo no Barreiro, sei pela forma
    como olhou os móveis que lhe agradou a decoração da casa, que lhe agradaram as máscaras e
    os leques, que lhe agradaram os bambus, que lhe agradaram sobretudo os arlequins da estante
    dado que ficou a observá-los que tempos, murmurando a sua admiração tão baixinho que não
    compreendi as palavras, e eu, orgulhosa, a explicar-lhes os bonecos um a um
    [...]
    e não foram apenas os palhaços que trouxe, foram os moinhos de café de latão, os almofarizes
    de bronze, a Marilin cromada, os calendários astrológicos, a cantoneira das chávenas e as
    tigelas chinesas com o friso doirado, e o Álvaro numa curiosidade maravilhada, a estudar as
    chinelas minhotas na parede do quarto 
(ANTUNES, 1994, p. 323-324).
 
   Semelhante impressão se tem ao pensar a relação de Álvaro com Cláudia, em que ele afirma ser ela uma estranha, parecendo sentir mais falta da casa do que dela. O processo de desterritorialização do protagonista assume aqui um novo aspecto: ele parece sentir falta da casa e das coisas, e não dos seres. O modo como amarfanha a carta de Cláudia parece confirmar essa predileção pelas coisas – chave, carta, nespereira – em detrimento dos indivíduos a elas relacionados:
 
    [...] Eu a lembrar-me que o meu pai possuía uma chave igual à que conservo ainda e para nada
    presta visto que a casa cessou de existir da mesma forma que cessei de existir para a tua mãe, a
    casa inteiramente esquecida como, aposto, a minha irmã a esqueceu, e de inteiramente
    esquecida inteiramente morta, a casa morta, os loendros mortos, a nespereira morta, o meu pai
    morto, eu morto para a tua mãe que segundo a carta que eu não lera, apenas palpava e dobrava
    e amarrotava na algibeira como se as palavras passassem a pele e eu me impregnasse delas, a
    carta que dizia Encontrei uma pessoa que se dá lindamente com o Nuno, Álvaro, estou
    apaixonada, sinto-me feliz
(ANTUNES, 1994, p.75).
 
   As lembranças e sensações de Álvaro aparecem, portanto, permeadas por objetos, como o lugar em que o pai trabalhava como fotógrafo, repleto de artefatos e acessórios para fotos temáticas:
 
    [...] Lembro-me dos almirantes, das sereias e dos toureiros sem cabeça onde caixeiros e criadas
    de servir assentavam o queixo e apareciam, do balde do revelador, comandando esquadras em
    batalhas navais, andando, entre santolas, com fieiras de pérolas nas barbatanas, ou pegando
    bois parecidos com carochas gigantescas.
(ANTUNES, 1994, p.49). 
 
   Ao se lembrar das montagens, criando situações artificiais e heróicas, nada condizentes com a realidade, Álvaro desvela o simulacro da realidade, nas fotos que o pai o obrigava a repetir, pois a pose ficara tremida. Tal fato sugere não apenas a artificialidade da situação, sem a espontaneidade do momento, mas também a preocupação em legar à posteridade algo supostamente perfeito.
   Curiosamente, os objetos surgem como marcas das carências ou problemas de cada personagem. Joaquim, pai de Álvaro, que afirma textualmente sua incapacidade de amar, cultua uma coleção de moedas com imagens dos reis de Portugal como se de relíquias se tratassem. Todo o afeto que nega aos seres é canalizado para a coleção, e é com ternura que se refere às peças, como se fossem seres amados:
 
    A casa onde o avô deles repetiu a mesma paciência ano inteiros do mesmo modo que o meu pai,
   deixando cair a cinza do charuto no roupão, abria e fechava estojos no escritório
   - D. Sancho I, Cristiana, D. João V, repara que bonito...   
(ANTUNES, 1994, p.90).
 
   Além da preferência explícita pelas coisas em detrimento das pessoas, a coleção de moedas antigas sugere ainda a preservação e o culto a um passado histórico épico de Portugal, em nada condizente com a decadência do presente. As próprias palavras do personagem parecem confirmar isso, ao refletirem a ideia de que a maior relíquia do indivíduo é o passado, ou, pelo menos, a lembrança que dele se tem: "e era dia, manhã, e não me interessava quem fosse, era-me indiferente quem pudesse ser, por não ter medo já de ficar só, por não ter nada, nem o passado, que me pudessem roubar." (ANTUNES, 1994, p.93).
 
   A
questão da lembrança é expressiva, pois toca na representação da realidade tal como é interpretada pelos homens. Segundo Berger e Luckmann, para quem “a vida cotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles na medida em que forma um mundo coerente” (BERGER; LUCKMANN, 2007, p. 35), é significativo o fato de algumas lembranças serem trabalhadas de forma incoerente, justamente pelo fato de fundirem memória e delírio.
   Curiosamente, é no instante de sua morte que as coisas parecem fazer sentido para Nuno, como se ele finalmente apreendesse o real sentido de tudo, conseguindo “na legitimação da morte, que a potência transcendentalizadora dos universos simbólicos se manifeste de maneira mais clara” (BERGER; LUCKMANN, 2007, p.139).
 
    e a dificuldade de respirar, o sofrimento, a doença, as mangueiras rotativas, os canteiros da
    cerca do hospital e as árvores do estádio desvaneciam-se por debaixo de mim, colocaram-me um
    biombo em redor da cama, mudaram-me para uma maca que rolava e principiaram a empurrar-me
    não sabia para onde, não me interessava para onde, não me preocupava para onde visto que,
    fizessem o que fizessem, mesmo depois de fecharem a porta, e do gelo e do frigorífico, e do
    silêncio, e das trevas, não me podiam impedir de cantar.
(ANTUNES, 1994, p. 315). 
 
   A cena final da narrativa, longe de representar um final, mostra um jogo de ausências, em que o vazio parece mais expressivo do que a presença. Na imagem do balouço vazio, Raquel percebe tudo o que sempre ignorara a respeito de Álvaro. É para essa imagem que convergem o delírio moribundo de Nuno, em busca de uma infância que jamais teve, e a patética tentativa, por parte de Álvaro, de resgatar uma cumplicidade e um passado irrecuperáveis, porque inexistentes:
 
    e compreendi o que até então não fora capaz de entender, e mesmo do lado de fora do Jardim
    Zoológico, apesar das dores, das tonturas, do peso nas pernas e da sensação de desmaio, vi-o,
    através das grades, empurrar de braços estendidos, para trás e para a frente, um balouço vazio.
   
(ANTUNES, 1994, p. 391).
 
   Seria, a nosso ver, justamente nisso que residiria a tônica do texto: numa problemática da morte que converge para a figura do balouço vazio, pois, segundo Maria Alzira Seixo,
 
    não é só Nuno quem morre, as personagens que o rodeiam e assumem com ele o discurso
    narrativo desaparecem todas, com o final ameaçador impendendo sobre Raquel, que de súbito
    compreende tudo, contemplando o baloiço vazio, isto é, que Carlos Gardel são eles todos,
    portadores de sonhos e de desalentos de vida. (SEIXO, 2002, p. 272).
 
   Todos morrem, pois, cada a um a seu modo, todos traduzem falências do homem contemporâneo. Cada um traz dentro de si um Carlos Gardel, tragicamente morto, em suas ilusões e utopias. A ilusão de que ele ainda vive, ou a eternização dos reis em moedas cuidadosamente guardadas, reflete a vã tentativa de se deter esse esfacelamento. O balouço vazio sugere as idas e vindas, para frente e para trás, de um mundo que se torna a cada dia mais líquido.
 
 
Referências
 
ANTUNES, António Lobo. A Morte de Carlos Gardel. Dom Quixote: Lisboa, 1994.
 
____________. Segundo livro de crónicas. Lisboa: Dom Quixote, 2004.
 
BAUMAN, Zigmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor: 2004.
 
_____________. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
 
BERGER, Peter. L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 27 ed. Trad. Floriano de Souza Fernandes. Petrópolis: Vozes, 2007.  
         

BLANCO, Maria Luisa. Conversas com António Lobo Antunes. Dom Quixote: Lisboa, 2002.
 
COHEN, Margaret. “Literatura panorâmica e invenção dos gêneros cotidianos”. In: CHARNEY, Leo;SCHWARTZ, Vanessa (Orgs.). O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.
 
ENZENSBERGER, Hans Magnus. “Cismas Portuguesas”. In: A Outra Europa, impressões de sete países europeus com um epílogo de 2003. São Paulo: Companhia das Letras, s/d.
 
LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade. Lisboa: Dom Quixote, 1988.
 
____________. A Mitologia da Saudade: seguido de Portugal como destino. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
               
SANTOS, Boaventura de Sousa. A Gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.
 
____________. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 2005.
 
SEIXO, Maria Alzira. Os romances de António Lobo Antunes. Lisboa: Dom Quixote, 2002.



IMAGINÁRIO, IDENTIDADE E CULTURA: A PERSPECTIVA REGIONAL
André Tessaro Pelinser
João Cláudio Arendt
Universidade de Caxias do Sul (UCS)


Resumo:
Este ensaio tem como objetivo analisar as relações travadas entre o imaginário social, a identidade e a cultura, por meio da aproximação dos conceitos das diversas áreas. Busca-se evidenciar como o processo se dá de forma circular, em que os elementos se influenciam mutuamente e contribuem entre si para a própria solidificação na mente do indivíduo. Em seguida, discutem-se as implicações das relações apontadas para a efetivação da ideia de região e de um imaginário regional, bem como sua presença na literatura.

Palavras-chave:
Imaginário social; cultura regional; identidade.


Abstract:
This essay intends to analyze the relationship between the social imaginary, the identity and the culture, approaching concepts of the different areas. It is intended to evidence the circular way the process happens, in which the elements influence themselves and contribute to their own solidification in the individual's mind. Afterwards, are discussed the shown relationships implications to the construction of the region idea and the regional imaginary, as well as its presence in the literature.

Keywords:
Social imaginary; regional culture; identity.


ÁRVORE: BREVE HISTÓRIA DE UMA REVISTA
Cinda Gonda
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)


Resumo:
Árvore: breve história de uma revista é um artigo que desenvolve algumas reflexões básicas sobre a poesia portuguesa dos anos cinquenta. O salazarismo, o contexto político português são ali tratados. Árvore alterou visões tanto no plano poético como da crítica literária.

Palavras-chave:
Poesia; história.


Abstract:
Árvore: a magazine short live is a article which builds some amount of fundamental reflections about the portuguese poetry of the fifties. The Portuguese political context and the salazarism are studied here. Árvore has altered understanding either in the poetic or in the literary criticism.

Keywords:
Poetry; history.


SÃO BERNARDO - A MEMÓRIA EM PRIMEIRA PESSOA
Cristiano Paulo Pitt
João Cláudio Arendt
Universidade de Caxias do Sul (UCS)


Resumo:
Este artigo dedica-se à análise do desempenho memorial do narrador na obra São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos. Serão analisadas, mediante conceitos da Sociologia, da Filosofia e da Neurologia, as manifestações que constituem este livro ficcional de memórias, com o objetivo de compreender as motivações e os interesses do protagonista, bem como a influência da sua constituição e de seu posicionamento para o entendimento do romance.

Palavras-chave:
Memória; São Bernardo; Graciliano Ramos.


Abstract:
This article is dedicated to the analysis of narrator's memorial perfomance in Graciliano Ramos work São Bernardo (1934). There will be analyzed, by means of Sociology, Philosophy and Neurology concepts, the manifestations that compose this fictional book of memories, with the aim of comprehend the protagonist's motivations and interests, as well as his constitution's and position's influence for the understanding of the novel.

Keywords:
Memory; São Bernardo; Graciliano Ramos.


"TERRA DE HERÓIS": HISTÓRIA E DISCURSOS DE IDENTIDADE EM MOÇAMBIQUE
Fernando Bessa Ribeiro
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro


Resumo:
O artigo reflecte sobre o processo de construção dos heróis em Moçambique, com base em duas figuras maiores da história de Moçambique: Ngungunhane, o último soberano do Império de Gaza, e Eduardo Mondlane, o primeiro presidente da Frelimo, o movimento de libertação contra o colonialismo português que dirige o país desde a independência em 1975. Relevando o carácter profundamente histórico da invenção dos heróis, marcada por lutas políticas e sociais, procura-se mostrar que o trabalho de heroificação tem de ser compreendido no contexto dos processos de construção da memória e da identidade colectivas da nação moçambicana levada a cabo pelo Estado e suas elites.

Palavras-chave:
Moçambique; memória; heróis.


Abstract:
The article discusses the construction of the heroes in Mozambique. The analysis is based in two of the most important personality of Mozambican history: Ngungunhane, the last sovereign of the Empire of Gaza, and Eduardo Mondlane, the first president of Frelimo, the liberation front movement against the Portuguese colonialism who it's in power since the independence of the country in 1975. Emphasizing the deeply historical character of the invention of the heroes, stressed by political and social fights, the article tries to show that the making of the heroes has to be understood in the context of the construction of the memory and collective identities of the Mozambican nation.

Keywords:
Mozambique; memory; heroes.


DE MEMÓRIAS E DORES INSEPULTAS: VIOLÊNCIA E TORTURA NA FICÇÃO PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA
Isabel Ferreira Gould
University of Notre Dame


Resumo:
A partir das obras de Lídia Jorge, António Lobo Antunes, Helder Macedo, Eduardo Pitta e, principalmente, de Paulo Bandeira Faria procuramos refletir pela via da lucidez literária, tanto da geração do pós-25 de Abril, como da geração mais nova, sobre os crimes contra a cidadania e a humanidade no Império Africano. Argumentamos que o romance intitulado As Sete Estradinhas de Catete (2007), de Paulo Bandeira Faria, oferece-se como um texto-reflexão sobre a violência e a tortura no Portugal colonial em ruína. Nele se recria um amplo universo de memórias e dores insepultas através de uma experiência iniciática em Angola dos anos 70.

Palavras-chave:
Romance português pós-revolucionário; Império Africano; violência.


Abstract:
Using as points of departure the works of Lídia Jorge, António Lobo Antunes, Helder Macedo, Eduardo Pitta and, especially, of Paulo Bandeira Faria, we seek to use the literary insights of the post-April 25 generation, and the newer generation, to understand crimes against citizenship and humanity in the African Empire. We argue that Paulo Bandeira Faria's novel, As Sete Estradinhas de Catete (2007), offers a text-reflection of violence and torture in the final years of colonial Portugal. The novel's story of initiation in Angola, in the 1970s, recreates a broad universe of unburied memories and wounds.

Keywords:
Post-Revolutionary portuguese novel; African Empire; violence.

                                           
Espaço em construção
Raquel Cristina dos Santos Pereira
Enviado por Raquel Cristina dos Santos Pereira em 28/02/2011
Alterado em 02/04/2011
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